Há muita coisa que fiz
Que não esqueço jamais!
Há muita coisa que quiz
Mas hoje não quero mais.
Já percorrí as campinas
E as áreas florestais,
Fui querido das meninas
Mas hoje eu não sou mais!
Já sentí necessidade
Dos carinhos maternais
Que me deixaram saudade,
Pois hoje não os tenho mais!
Já conversei noite inteira
Com uma moça ou rapaz
Mas hoje com a canseira
Eu não posso falar mais!
Não fui um namorador,
Não lutei contra rivais
Hoje tenho o meu amor
E eu não namoro mais.
Já troquei juras de amor
À sombra de cafezais
Não vejo coisa melhor
Mas hoje não troco mais.
Comí tudo todo o dia
Com apetite voraz
À gula satisfazia…
Mas hoje não como mais.
Do voleibol fui um lente,
E um craque bem capaz. ,
Mas hoje estou ciente
Que não posso jogar mais.
Já me perdí no sertão
Sem saber voltar atraz
Temendo a imensidão.
Em casa não temo mais!
Se hoje eu não consigo
Fazer o que sempre fiz
Tenho uma graça comigo:
Eu sou um velho feliz!
Se eu fiz e não mais faço,
E quiz o que não mereço,
Se ocupei outro espaço
Somente a Deus agradeço!
Pelas campinas sou grato,
Por pastos que percorrí,
Pela grama, pelo mato,
Pelo mundo em que viví.
Mas eu mesmo reconheço,
Que de tudo o que é meu,
O que eu mais agradeço
É a mulher que me deu.
Juntos nós envelhecemos,
Desfrutamos de alegria,
Juntos também sofremos,
Tudo como Deus queria.
Deus me deu outro tesouro,
Alvo dos meus afetos,
Valendo mais que o ouro:
O meu filho e meus netos.
Por tudo o que recebí,
E que me foi concedido,
Por tudo que eu viví,
A Deus sou agradecido!
Cada dia envelhecendo,
E cada dia, estou certo,
No fim da vida, vou vendo
A vida eterna mais perto
Aos que ficam, a lembrança,
De um velho que os amou,
Que se foi, mas a esperança
Para os seus ele deixou.
julho, 2002